Painel Rondônia

Violência contra povos indígenas em Rondônia: ameaças, terra e o preço da resistência

Com assassinatos em alta e territórios sob pressão do agronegócio, lideranças como a cacica Hozana Puruborá denunciam falhas na proteção estatal enquanto lutam pelo reconhecimento de seus direitos

13 de abril de 2026 🔒 Exclusivo assinantes
Violência contra povos indígenas em Rondônia: ameaças, terra e o preço da resistência

A violência letal contra povos indígenas no Brasil aumentou mais de 200% em dez anos. Em Rondônia, a cacica Hozana Puruborá (liderança indígena) vive sob ameaças concretas — tiros, incêndios, ofertas de dinheiro por sua morte — enquanto o Estado falha em garantir proteção efetiva. O caso expõe um padrão estrutural de conflito fundiário na Amazônia que envolve agronegócio, insegurança jurídica e omissão institucional. O portal Voz da Terra publicou uma série de reportagens sobre a violência no campo.

A escalada dos números: o que revelam os relatórios do Cimi

Os dados são categóricos. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organização com décadas de atuação na documentação de violações contra povos originários, o número de indígenas assassinados no Brasil passou de 54 registros em 2015 para 211 em 2024 — um aumento de 201,43% em uma década.

O relatório mais recente contabiliza 424 casos de violência contra indígenas em 2024, incluindo ameaças de morte, lesões corporais, tentativas de assassinato, racismo, violência sexual e homicídios culposos. O Brasil abriga cerca de 1,69 milhão de pessoas que se autodeclaram indígenas, conforme o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022.

“A pergunta que atravessa essas histórias é simples e incômoda: quem dá proteção a quem protege a terra?”

Em Rondônia, embora os homicídios não atinjam a mesma magnitude estatística de outros estados amazônicos, a violência se manifesta de outras formas: tiros contra residências, casas de reza incendiadas, invasões recorrentes, aplicação de agrotóxicos próximos a aldeias e ameaças diretas a lideranças. Em alguns relatos, a ameaça é literalmente precificada — lideranças afirmam ter ouvido que suas cabeças “valiam” determinada quantia em dinheiro.

O caso Hozana Puruborá: resistência sob fogo no Vale do Guaporé

Hozana Castro de Oliveira Montanhas Puruborá, 64 anos, cacica do povo Puruborá, vive na aldeia Aperoí, no km 32 da BR-429, entre São Francisco do Guaporé e Seringueiras. Sua rotina é marcada por episódios que ilustram a vulnerabilidade de defensores de terra na região.

Em dezembro de 2025, doze tiros atravessaram uma placa de sinalização em frente à comunidade Ywará Puruborá. O recado era claro. Dias antes, na noite de 19 de outubro, Hozana ouviu três disparos enquanto retornava para casa; uma motocicleta se aproximou, atirou e fugiu. No dia seguinte, a Casa de Reza do povo Puruborá — primeira maloca erguida após décadas, espaço sagrado de reconexão ancestral — foi incendiada. Restaram apenas pedaços de madeira carbonizada.

“Eles queimaram a nossa maloca, eles não queimaram nós, e nem vão queimar”

A cacica relata que, em 2005, foi avisada por um amigo de que homens planejavam matá-la naquela noite. Refugiou-se em Porto Velho por quatro meses. Anos depois, soube que um homem preso contou ao seu sobrinho que havia recebido cinco mil reais para executar o crime. “Esse era o preço da minha cabeça na época”, afirma.

Do apagamento institucional ao ressurgimento: a trajetória do povo Puruborá

A violência atual contra Hozana não é um episódio isolado. Ela se inscreve em uma sequência histórica que marca a relação do Estado brasileiro com o povo Puruborá há mais de um século. Autointitulados “Povo das Onças”, os Puruborá foram retirados de seu território tradicional no início do século XX durante as expedições do Marechal Cândido Rondon para instalação de linhas telegráficas no vale do rio Guaporé.

Segundo relato da cacica, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), antecessor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), concentrou o povo no Posto Indígena Dois de Maio. Com a morte do encarregado local, os Puruborá foram relegados à própria sorte e obrigados a silenciar sobre sua origem para sobreviver.

Na década de 1990, durante o processo de demarcação da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, a Funai negou a existência do povo Puruborá. “Se a pessoa soubesse falar o português, já não era mais índio. E aí, por isso que nós, Puruborá, para eles, fomos extintos”, resume Hozana.

O ponto de virada ocorreu em 2001, com a atuação do frei Volmir Cândido Bavaresco, missionário do Cimi. Ao visitar famílias Puruborá, ele ajudou a romper o silêncio imposto e deu início ao processo de rearticulação coletiva. Desde então, o povo conquistou acesso à saúde e à educação, incluindo uma escola indígena na aldeia. Mas a demarcação do território — onde hoje vivem 12 famílias — segue pendente

Agrotóxicos, omissão e a fragilidade da proteção estatal

A violência contra o povo Puruborá também se manifesta por meio do uso de defensivos agrícolas em lavouras de soja instaladas ao redor da aldeia. Hozana relata que pulverizações aéreas e terrestres atingiram diretamente o território, destruindo mais de dez mil pés de mandioca e contaminando solo, água e fauna.

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou a dois produtores rurais de Seringueiras que suspendessem a aplicação de agrotóxicos nas áreas próximas às aldeias indígenas. “Além do risco causado pelo uso frequente de fertilizantes e defensivos agrícolas, o uso constante de aeronaves que sobrevoam a região, próximo às residências dos Puruborá, causam transtornos aos moradores”, declarou o órgão em nota de 10 de fevereiro de 2026.

A medida representou uma vitória parcial: a pulverização aérea foi interrompida. Mas, segundo a cacica, o uso de veneno continua por meio de pulverizadores acoplados a tratores.

Quanto à proteção física, Hozana está incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), vinculado ao governo federal. Na prática, porém, a proteção se limita a contatos e monitoramento remoto. “Na prática não tem servido de muita coisa, não”, avalia Camila Puruborá, 32 anos, filha da cacica.

O procurador da República Raphael Luís Pereira Bevilaqua reiterou ao Voz da Terra que Rondônia enfrenta uma deficiência estrutural na proteção a defensores: o estado “não tem” programa próprio e, no modelo atual, “não tem uma relação hierárquica entre o programa de proteção de defensores de direitos humanos e o Estado de Rondônia”.

Continuidade geracional: da avó silenciada à filha que escreve

Hozana não está sozinha. Sua filha mais velha, Camila Gilmara de Oliveira Araújo Puruborá, cresceu “vendo a luta da mãe”, uma luta espelhada na resistência da avó Emília. “Nasceu se criou aí vendo a luta da mãe e a mãe espelhada na luta da mãe dela, né? Na avó. Tanto pelo território, como também pela identidade, pela continuidade, pelos nossos direitos, que foram negados para a gente”, afirma.

Camila pertence à geração que não precisou esconder o nome do próprio povo, mas que aprendeu desde cedo que existir como Puruborá ainda exige coragem. Atuando na Aldeia Aperoí, ela participa da organização comunitária, desenvolve projetos culturais e se dedica à educação como ferramenta de fortalecimento identitário.

Autora do livro “Puruborá, A Luta e Resistência De Um Povo Através De Gerações”, Camila documenta a trajetória das mulheres de sua família — da avó Emília à cacica Hozana — garantindo que o “povo dado como extinto” conte a própria história. Na escola da aldeia, aquela que nasceu sob lona como resposta ao medo, a história das mulheres da família virou conteúdo pedagógico.

Uma conquista recente simboliza reparação: o recebimento de cerca de 40 registros civis com o sobrenome Puruborá incorporado. “Nós somos em poucos aqui, mas a gente não tá lutando por esses que já estão aqui. Nós estamos lutando para trazer nosso povo de volta”, explica Camila.

Marco Temporal e insegurança jurídica: o contexto nacional que alimenta o conflito

O primeiro ano de vigência do Marco Temporal (Lei 14.701/2023) — tese segundo a qual povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem ocupando em 5 de outubro de 1988 — foi marcado pelo recrudescimento de conflitos e violência contra povos indígenas em luta pela terra, segundo o Cimi.

Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha declarado a tese inconstitucional em 2023, o Congresso aprovou a Lei 14.701, mantendo o impasse jurídico. O relatório do Cimi sustenta que iniciativas e decisões tomadas nos âmbitos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário ao longo de 2024 reforçaram um ambiente de insegurança jurídica e de continuidade da violência nos territórios indígenas.

Na Amazônia Legal, o avanço das invasões permanece alarmante. Em 2024, 22 Terras Indígenas com presença de povos isolados sofreram invasões, exploração ilegal de recursos ou danos ao patrimônio, totalizando 45 ocorrências.

A história de Hozana Puruborá não é um caso isolado. É um retrato de como a violência no campo e nos territórios indígenas não é episódica: ela se repete, se reorganiza e se adapta às disputas por terra e poder. Enquanto o Estado debate teses jurídicas e programas de proteção permanecem no papel, lideranças indígenas seguem vivendo — e resistindo — sob ameaças concretas.

O que está em jogo vai além da demarcação de um território. É a efetividade do Estado de Direito na Amazônia. É a pergunta que ecoa: em um país onde proteger a terra pode custar a vida, quem garante a vida de quem protege a terra?

Leia as reportagens no Voz da Terra.

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Ficha técnica das reportagens

Reportagem: Josi Gonçalves

Fotos e produção: Francisco Costa

Edição: Rubens Valente

Diagramação e projeto gráfico: Lucas Davi

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