Conflito em Nova Mutum Paraná reacende debate sobre regularização de terras e a omissão estatal que alimenta ciclos de violência no campo rondoniense
Um ataque armado na Fazenda Norbrasil, às margens da BR-364 em Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho, deixou na noite desta terça-feira (14) o policial civil aposentado Joaquim Lopes da Silva morto, trabalhadores feridos e quatro desaparecidos. A ação, atribuída pela família do proprietário e por autoridades a integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), reacende o debate sobre a ausência de soluções estruturais para conflitos fundiários em Rondônia — e cobra do Estado uma resposta definitiva, não apenas reativa.
Por volta das 14h, uma equipe de seis trabalhadores retornava de almoço a uma residência em reforma dentro da propriedade quando foi surpreendida por homens armados posicionados atrás da edificação. Os disparos foram imediatos. Um trabalhador, atingido no rosto e no braço, conseguiu fugir até a BR-364 e foi socorrido por uma equipe de passagem, sendo levado à UPA de Jaci-Paraná. Outro funcionário, baleado no pé, escondeu-se em uma vala até ser resgatado."Os criminosos chegaram atirando, tomaram o local e agrediram com coronhadas. Além da morte do policial, quatro trabalhadores desapareceram", relatou um carpinteiro que estava no local.Um veículo da propriedade foi incendiado durante a fuga dos agressores. Policiais do 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM) encontraram o carro em chamas e cápsulas de fuzil no local, indicando uso de armamento pesado. A Polícia Militar de Rondônia reforçou o patrulhamento na região e iniciou buscas pelos desaparecidos.Na unidade hospitalar de Extrema, um trabalhador de nacionalidade boliviana foi atendido com ferimentos por disparo de arma de fogo, corroborando a dinâmica do ataque. Parte das vítimas foi transferida para Porto Velho no final da noite para atendimento especializado.
A Fazenda Norbrasil não é um cenário improvisado de violência. A propriedade está vinculada ao latifundiário Antônio Martins dos Santos, conhecido como "Galo Velho", apontado já em 2005 na CPI da Grilagem como um dos maiores grileiros de Rondônia. Investigações do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal (PF) indicam que Martins comandaria uma organização criminosa responsável por desviar mais de R$ 330 milhões em fraudes no estado, utilizando bandos armados — inclusive com participação de policiais — para garantir o controle de terras.Em 2017, um processo de reintegração de posse na área foi arquivado pela Justiça Federal porque o suposto proprietário não conseguiu comprovar a cadeia dominial do imóvel — indício forte de que se tratava de terra pública grilada. Ainda assim, a área jamais foi destinada à reforma agrária, como prevê a Constituição de 1988.Em junho de 2020, mais de 600 famílias ocuparam a região e fundaram o Acampamento Tiago Campin dos Santos, organizado pela LCP. O local tornou-se símbolo da luta camponesa em Rondônia — e, consequentemente, alvo de operações de repressão.
"Repetimos: enganam-se pensando que seus ataques vão parar a luta pela terra!", afirmou a LCP em comunicado público, reafirmando que a disputa por reforma agrária é "causa histórica pendente de solução".
O comandante-geral da PM-RO, coronel Régis Braguin, classificou o ataque como "bandidagem pura" e afirmou que a LCP "age como organização terrorista". Em vídeo publicado em redes sociais, Braguin disse: "A nossa resposta seguirá firme, à altura da ameaça e intolerante com o crime".Por outro lado, a LCP e organizações de direitos humanos denunciam que a corporação atua como braço armado de latifundiários. A Operação Lamassu, deflagrada pelo MPF em 2022, confirmou que "Galo Velho" mantinha bandos armados compostos por policiais civis e militares para atuar contra camponeses.
A repetição cíclica de episódios violentos na Norbrasil não é acidente. É sintoma. Enquanto não houver regularização fundiária transparente, mediação institucional efetiva e investigação isenta sobre a atuação de policiais em conflitos agrários, a tendência é que a escalada continue.O custo humano já é alto: mortes, feridos, desaparecidos, famílias desestruturadas. O custo econômico também: prejuízos materiais recorrentes, insegurança jurídica para investimentos, desgaste da imagem do estado. Mas o custo político é o mais grave: a percepção de que o Estado abdica de seu papel mediador e se torna parte interessada no conflito.
A pergunta que fica não é quem atirou primeiro na noite do dia 14. É: até quando Rondônia vai conviver com a normalização da violência fundiária? A Fazenda Norbrasil é um microcosmo de um problema nacional — mas com contornos locais que exigem respostas locais. Não basta reforçar o policiamento após cada ataque. É preciso enfrentar a raiz: a ausência de política fundiária, a lentidão da justiça, a opacidade na destinação de terras públicas. O Estado tem o dever constitucional de mediar conflitos, não de escolher lados. Enquanto essa mediação não acontecer, o próximo ataque não será uma surpresa. Será uma consequência.
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