Painel Econômico

Crise Hapvida: ações caem 95% e acionistas cobram mudança

Com valor de mercado reduzido a R$ 6,2 bilhões, operadora enfrenta pressão de investidores por renovação na gestão após fusão considerada mal-sucedida com a NotreDame Intermédica

15 de abril de 2026 🔒 Exclusivo assinantes
Crise Hapvida: ações caem 95% e acionistas cobram mudança
  • Ações da Hapvida perderam 95% do valor desde 2021, eliminando mais de R$ 80 bilhões em valor de mercado
  • Família controladora aumentou participação para 48,5%, enquanto investidores como a Squadra cobram mudança no conselho
  • Fusão com a NotreDame Intermédica, avaliada em mais de R$ 110 bilhões em 2021, não entregou sinergias esperadas e pesou nos resultados
  • Plano de recuperação depende da venda de ativos, mas analistas alertam que a medida não resolve desafios operacionais estruturais
  • Por que isso importa: o caso testa a governança de empresas familiares listadas no Brasil e sinaliza riscos para investidores em momentos de expansão agressiva

Com valor de mercado reduzido a R$ 6,2 bilhões, operadora enfrenta pressão de investidores por renovação na gestão após fusão considerada mal-sucedida com a NotreDame Intermédica."Era uma das teses vistas como de mais crescimento da bolsa", disse Daniel Utsch, gestor da Nero Capital. As ações da Hapvida (HAPV3) enfrentam uma trajetória prolongada de queda. Os papéis da operadora de saúde acumulam desvalorização de 95% em relação à máxima de 2021, eliminando mais de R$ 80 bilhões em valor de mercado. O papel é o de pior desempenho do Ibovespa nos últimos doze meses, enquanto o índice principal da bolsa brasileira opera em alta de 23% no período. Diante do cenário, os principais acionistas parecem ter atingido o limite. A família por trás da Hapvida tem reforçado o controle acionário, e, enquanto o chefe da empresa — membro do clã fundador — se prepara para trocar o cargo de CEO por um assento no conselho, um grande investidor está pedindo uma nova composição de diretores.

O que levou a Hapvida ao fundo do poço

O impulso por mudanças vem na esteira de aumento de custos, crescimento fraco e uma fusão lida como mal-sucedida, o que resultou em uma série de resultados decepcionantes para investidores e analistas.A Hapvida tinha mais de quinze recomendações de compra em 2023. Agora, tem apenas uma. O plano de recuperação depende da venda de ativos comprados há quatro anos para acelerar sua expansão no Sudeste. Embora as ações tenham subido 25% na semana passada após a empresa anunciar a venda de parte desses ativos, uma transação isolada não resolverá todos os seus problemas."Mesmo que uma transação ocorra, isso não representa uma solução estrutural para os desafios operacionais subjacentes da empresa", escreveram os analistas Flavio Yoshida e Mirela Oliveira, do Bank of America. Ainda assim, a nomeação do diretor financeiro — que não é membro da família — para liderar a empresa indica reconhecimento de que algo precisava mudar. Na semana passada, o CEO que está de saída, Jorge Pinheiro, reconheceu em uma carta que os resultados ficaram "aquém do que somos capazes de entregar". A Hapvida não respondeu a um pedido de comentário.

De queridinha da bolsa a caso de governança

Antes queridinha entre os maiores gestores de fundos do país, a Hapvida viu seu valor de mercado despencar de R$ 88,2 bilhões no pico para apenas R$ 6,2 bilhões. O ponto de inflexão foi a pandemia de Covid-19. Antes da crise sanitária, a Hapvida se expandia rapidamente a partir de sua base em Fortaleza, no Ceará. Ganhava participação de mercado ao oferecer planos para pacientes de baixa renda em hospitais próprios, como alternativa privada ao Sistema Único de Saúde. Os investidores se interessaram pelas perspectivas de crescimento e a ação subiu 23% na estreia na bolsa em 2018. Mas, em 2021, houve uma deterioração de resultados. A inflação no Brasil atingiu dois dígitos e a empresa teve dificuldades para lidar com o cenário. Um indicador-chave que mede os custos médicos como percentual das receitas de prêmios disparou, pressionando as margens."O mercado achava que a empresa teria poder de repasse de preços", disse Murilo Arruda, gestor da Morada Capital. Mas isso não foi fácil, já que a Hapvida compete com o SUS.

A fusão que não entregou sinergias

No mesmo ano, a empresa acertou a fusão com a NotreDame Intermédica, movimento que criaria uma companhia avaliada em mais de R$ 110 bilhões e estabeleceria forte presença no Sudeste.O ambicioso plano de expansão acabou pesando nos lucros. A Hapvida teve dificuldades para se adaptar à região e ao público de maior renda, perdendo mais de 200 mil clientes no Sul e Sudeste no ano passado. As ações despencavam após cada resultado fraco.Com os papéis próximos das mínimas históricas, a família controladora aumentou recentemente sua participação, segundo um documento divulgado na semana passada. Agora, detém 48,5% das ações da Hapvida, ante cerca de 41% em novembro. A Squadra Investimentos, um dos principais acionistas, criticou Pinheiro e o conselho por uma "sequência de decisões equivocadas", chamando a queda das ações de "uma das maiores destruições de valor da história do mercado de capitais brasileiro".

Quanto à fusão com a Intermédica, os efeitos negativos de uma integração mal executada desses ativos persistem até hoje e não mostram perspectiva de reversão, afirmou a gestora em carta no início deste mês. Para recolocar a empresa nos trilhos, a Squadra recomendou reduzir o endividamento, reequilibrar a estrutura de capital e focar as operações em regiões onde a empresa tem vantagem competitiva mais clara."A Hapvida possui ativos que, nas mãos de operadores com foco e habilidades específicas para cada segmento e região, apresentam oportunidade concreta de recuperação", escreveu a gestora.

O que esperar dos próximos capítulos

A troca de comando na Hapvida — com a saída de Jorge Pinheiro da CEO e a possível entrada de um executivo não familiar no posto — é um sinal de que a empresa reconhece a necessidade de renovação. Mas a questão central permanece: será que mudanças na alta gestão bastam para reverter um quadro de perda de competitividade, custos elevados e integração mal resolvida?Analistas ouvidos pelo Painel apontam que a venda de ativos pode aliviar o caixa no curto prazo, mas não substitui uma reestruturação operacional profunda. Para investidores, o caso serve como alerta sobre os riscos de expansão acelerada sem governança robusta — especialmente em setores sensíveis como saúde suplementar, onde margens são apertadas e a regulação é intensa.

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