Painel Econômico

Credores da Raízen sobem a aposta: querem 90% da empresa por metade da dívida

Itaú e Bradesco ameaçam cortar crédito a toda a Cosan se acordo não favorecer credores; prazo extrajudicial vai até 6 de junho e mercado observa risco sistêmico para o setor de biocombustíveis

14 de abril de 2026 🔒 Exclusivo assinantes
Credores da Raízen sobem a aposta: querem 90% da empresa por metade da dívida

Os detentores de títulos e credores bancários da Raízen (RAIZ4) elevaram o tom nas negociações de reestruturação da maior dívida extrajudicial da história do Brasil. Segundo fontes familiarizadas com as conversas que falaram à Bloomberg News, os credores passaram a exigir até 90% de participação acionária na empresa — em troca da conversão de apenas 45% de uma dívida total de R$ 65,1 bilhões. O prazo para um acordo extrajudicial expira em 6 de junho de 2026.

De Nova York para Brasília: como a negociação escalou

A proposta original era da própria Raízen. A empresa havia apresentado um plano que previa a conversão de ao menos 45% da dívida em ações, o que deixaria os credores com até 70% das ações ordinárias, caso os papéis fossem precificados em torno de 40 centavos de dólar.

Os credores rejeitaram o percentual. Agora pedem 90% — vinte pontos a mais do que a Raízen estava disposta a ceder. A distância entre as posições revela não apenas uma disputa por participação, mas uma profunda desconfiança sobre a capacidade dos controladores de sanear a empresa sem abrir mão do comando.

Durante as reuniões em Nova York, os acionistas controladores Shell e Cosan resistiram à pressão dos credores para que se comprometessem a injetar mais recursos na Raízen. A Shell concordou com um aporte de R$ 3,5 bilhões e o fundador da Cosan, Rubens Ometto, comprometeu-se com R$ 500 milhões — mas os credores consideram insuficiente.

Itaú e Bradesco entram na batalha

O elemento mais explosivo das negociações é a ameaça direta de dois dos maiores bancos privados do país. O Itaú Unibanco Holding e o Banco Bradesco estariam, segundo as fontes da Bloomberg, dispostos a cortar o crédito a outras empresas do grupo Cosan caso um acordo mais favorável aos credores não seja alcançado.

Não se trata de pressão sobre a Raízen apenas — é pressão sobre todo o ecossistema financeiro da Cosan, que controla também empresas ferroviárias, de gás natural e de lubrificantes.

"A ameaça dos bancos de cortar crédito ao grupo todo é o recado mais claro de que o mercado não aceita mais absorver perdas sem contrapartida de controle."

A Cosan encerrou dezembro com uma dívida líquida de R$ 9,7 bilhões — valor 46% menor do que no trimestre anterior, após receber uma injeção de capital de R$ 4,5 bilhões no final de 2025, com participação do BTG Pactual. Mas os credores da Raízen veem esse movimento como insuficiente diante da dimensão do buraco.

A maior reestruturação extrajudicial do Brasil

Para entender o tamanho do que está em jogo, é preciso números. O passivo total da reestruturação abrange R$ 98,63 bilhões — incluindo R$ 33,49 bilhões em obrigações entre os próprios sócios, os chamados créditos intercompany. Esse montante faz da operação da Raízen a segunda maior reestruturação de dívida da história do Brasil, atrás apenas da recuperação judicial da Odebrecht, protocolada em 2019. 

A dívida líquida da Raízen disparou por uma combinação de investimentos pesados, clima instável e incêndios florestais, que levaram a colheitas mais fracas e volumes de moagem mais baixos. Em fevereiro, a empresa chegou a alertar sobre uma "incerteza significativa" quanto à sua capacidade de continuar operando.

O plano original reduziria a alavancagem da companhia para entre 3 e 3,5 vezes o Ebitda, ante 5,3 vezes atualmente, e abriria caminho para uma eventual separação entre a unidade de açúcar e etanol dos negócios de distribuição de combustíveis.  A separação em si já é considerada estruturalmente relevante — mas só faz sentido com um novo controle acionário que os credores hoje disputam.

Por que os credores querem mais do que dinheiro

As negociações expõem uma disputa que vai além dos números: os credores querem mais influência sobre a forma como a gigante brasileira de biocombustíveis é administrada. A pressão tem origem na estrutura do acordo em discussão — como os credores devem se tornar acionistas relevantes, passam a exigir voz na gestão da companhia.

Isso é uma virada conceitual. Credores de títulos corporativos raramente entram no capital de empresas no Brasil — e quando o fazem, o mercado interpreta como sinal de que o ativo em questão não tem perspectiva de recuperação com a administração atual. A exigência de 90% vai além de garantia financeira: é uma sinalização de que o mercado perdeu confiança nos gestores atuais.

Os bonds da Raízen chegaram a ser negociados a 30% do valor de face — ou seja, com um desconto de 70% em relação ao valor nominal. Quem comprou esses papéis com desconto tem incentivo para converter em ações e apostar na recuperação. Quem está com papéis no valor original quer compensação máxima.

O prazo aperta: 6 de junho no horizonte

A Raízen tem o prazo de 90 dias para obter a adesão expressa da maioria dos credores ao plano atualizado. O juiz Guilherme Cavalcanti Lamego determinou a suspensão de ações e execuções contra as devedoras pelo prazo de 180 dias, o chamado stay period, para garantir estabilidade durante a negociação. 

O acordo extrajudicial exige adesão de dois terços dos credores do passivo sujeito à reestruturação. A Raízen informou que já conta com a adesão expressa de credores titulares de mais de 47% das dívidas financeiras, percentual que demonstra "apoio relevante" — mas ainda insuficiente. 

Sem acordo, o caminho seria uma recuperação judicial formal — processo mais longo, mais custoso e com efeitos reputacionais que os próprios credores querem evitar.

Um sintoma de crise mais ampla no crédito corporativo

A Raízen não está sozinha. A negociação é um termômetro de um momento mais tenso no mercado de crédito privado brasileiro. Além da Raízen, outras empresas de grande porte também enfrentam dificuldades: a rede de supermercados Cia. Brasileira de Distribuição buscou reestruturação extrajudicial recentemente, a Alliança Saúde e Participações pediu proteção judicial temporária contra credores, e empresas como Braskem, Kora Saúde e Oncoclínicas também avaliam medidas de reestruturação, segundo fontes do mercado.

"Negociadores de dívida se desanimaram com o crédito corporativo brasileiro depois de uma série de más notícias. A Raízen é o símbolo mais visível — mas não o único."

O que diferencia o caso da Raízen é escala e simbologia. A joint venture entre Shell e Cosan, criada em 2011, é um ativo estratégico do agronegócio e dos biocombustíveis — setor que o Brasil construiu como diferencial competitivo global. Ver esse ativo à beira de uma ruptura de controle acionário não é apenas um problema financeiro. É uma pergunta sobre o modelo de crescimento alavancado que dominou o Brasil corporativo na última década.

A resposta que emergir dessas negociações até 6 de junho vai além da Raízen. Ela vai definir o apetite dos credores — nacionais e internacionais — para o próximo ciclo de investimento no país.

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