Itaú e Bradesco ameaçam cortar crédito a toda a Cosan se acordo não favorecer credores; prazo extrajudicial vai até 6 de junho e mercado observa risco sistêmico para o setor de biocombustíveis
Os detentores de títulos e credores bancários da Raízen (RAIZ4) elevaram o tom nas negociações de reestruturação da maior dívida extrajudicial da história do Brasil. Segundo fontes familiarizadas com as conversas que falaram à Bloomberg News, os credores passaram a exigir até 90% de participação acionária na empresa — em troca da conversão de apenas 45% de uma dívida total de R$ 65,1 bilhões. O prazo para um acordo extrajudicial expira em 6 de junho de 2026.
A proposta original era da própria Raízen. A empresa havia apresentado um plano que previa a conversão de ao menos 45% da dívida em ações, o que deixaria os credores com até 70% das ações ordinárias, caso os papéis fossem precificados em torno de 40 centavos de dólar.
Os credores rejeitaram o percentual. Agora pedem 90% — vinte pontos a mais do que a Raízen estava disposta a ceder. A distância entre as posições revela não apenas uma disputa por participação, mas uma profunda desconfiança sobre a capacidade dos controladores de sanear a empresa sem abrir mão do comando.
Durante as reuniões em Nova York, os acionistas controladores Shell e Cosan resistiram à pressão dos credores para que se comprometessem a injetar mais recursos na Raízen. A Shell concordou com um aporte de R$ 3,5 bilhões e o fundador da Cosan, Rubens Ometto, comprometeu-se com R$ 500 milhões — mas os credores consideram insuficiente.
O elemento mais explosivo das negociações é a ameaça direta de dois dos maiores bancos privados do país. O Itaú Unibanco Holding e o Banco Bradesco estariam, segundo as fontes da Bloomberg, dispostos a cortar o crédito a outras empresas do grupo Cosan caso um acordo mais favorável aos credores não seja alcançado.
Não se trata de pressão sobre a Raízen apenas — é pressão sobre todo o ecossistema financeiro da Cosan, que controla também empresas ferroviárias, de gás natural e de lubrificantes.
"A ameaça dos bancos de cortar crédito ao grupo todo é o recado mais claro de que o mercado não aceita mais absorver perdas sem contrapartida de controle."
A Cosan encerrou dezembro com uma dívida líquida de R$ 9,7 bilhões — valor 46% menor do que no trimestre anterior, após receber uma injeção de capital de R$ 4,5 bilhões no final de 2025, com participação do BTG Pactual. Mas os credores da Raízen veem esse movimento como insuficiente diante da dimensão do buraco.
Para entender o tamanho do que está em jogo, é preciso números. O passivo total da reestruturação abrange R$ 98,63 bilhões — incluindo R$ 33,49 bilhões em obrigações entre os próprios sócios, os chamados créditos intercompany. Esse montante faz da operação da Raízen a segunda maior reestruturação de dívida da história do Brasil, atrás apenas da recuperação judicial da Odebrecht, protocolada em 2019.
A dívida líquida da Raízen disparou por uma combinação de investimentos pesados, clima instável e incêndios florestais, que levaram a colheitas mais fracas e volumes de moagem mais baixos. Em fevereiro, a empresa chegou a alertar sobre uma "incerteza significativa" quanto à sua capacidade de continuar operando.
O plano original reduziria a alavancagem da companhia para entre 3 e 3,5 vezes o Ebitda, ante 5,3 vezes atualmente, e abriria caminho para uma eventual separação entre a unidade de açúcar e etanol dos negócios de distribuição de combustíveis. A separação em si já é considerada estruturalmente relevante — mas só faz sentido com um novo controle acionário que os credores hoje disputam.
As negociações expõem uma disputa que vai além dos números: os credores querem mais influência sobre a forma como a gigante brasileira de biocombustíveis é administrada. A pressão tem origem na estrutura do acordo em discussão — como os credores devem se tornar acionistas relevantes, passam a exigir voz na gestão da companhia.
Isso é uma virada conceitual. Credores de títulos corporativos raramente entram no capital de empresas no Brasil — e quando o fazem, o mercado interpreta como sinal de que o ativo em questão não tem perspectiva de recuperação com a administração atual. A exigência de 90% vai além de garantia financeira: é uma sinalização de que o mercado perdeu confiança nos gestores atuais.
Os bonds da Raízen chegaram a ser negociados a 30% do valor de face — ou seja, com um desconto de 70% em relação ao valor nominal. Quem comprou esses papéis com desconto tem incentivo para converter em ações e apostar na recuperação. Quem está com papéis no valor original quer compensação máxima.
A Raízen tem o prazo de 90 dias para obter a adesão expressa da maioria dos credores ao plano atualizado. O juiz Guilherme Cavalcanti Lamego determinou a suspensão de ações e execuções contra as devedoras pelo prazo de 180 dias, o chamado stay period, para garantir estabilidade durante a negociação.
O acordo extrajudicial exige adesão de dois terços dos credores do passivo sujeito à reestruturação. A Raízen informou que já conta com a adesão expressa de credores titulares de mais de 47% das dívidas financeiras, percentual que demonstra "apoio relevante" — mas ainda insuficiente.
Sem acordo, o caminho seria uma recuperação judicial formal — processo mais longo, mais custoso e com efeitos reputacionais que os próprios credores querem evitar.
A Raízen não está sozinha. A negociação é um termômetro de um momento mais tenso no mercado de crédito privado brasileiro. Além da Raízen, outras empresas de grande porte também enfrentam dificuldades: a rede de supermercados Cia. Brasileira de Distribuição buscou reestruturação extrajudicial recentemente, a Alliança Saúde e Participações pediu proteção judicial temporária contra credores, e empresas como Braskem, Kora Saúde e Oncoclínicas também avaliam medidas de reestruturação, segundo fontes do mercado.
"Negociadores de dívida se desanimaram com o crédito corporativo brasileiro depois de uma série de más notícias. A Raízen é o símbolo mais visível — mas não o único."
O que diferencia o caso da Raízen é escala e simbologia. A joint venture entre Shell e Cosan, criada em 2011, é um ativo estratégico do agronegócio e dos biocombustíveis — setor que o Brasil construiu como diferencial competitivo global. Ver esse ativo à beira de uma ruptura de controle acionário não é apenas um problema financeiro. É uma pergunta sobre o modelo de crescimento alavancado que dominou o Brasil corporativo na última década.
A resposta que emergir dessas negociações até 6 de junho vai além da Raízen. Ela vai definir o apetite dos credores — nacionais e internacionais — para o próximo ciclo de investimento no país.
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