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Vorcaro negocia devolução de bilhões para fechar delação sobre fundos de pensão

Ex-banqueiro do Master teme dilapidação de patrimônio oculto e corre contra o tempo para formalizar acordo com PF e PGR; prejuízo em previdências estaduais e municipais supera R$ 3 bilhões

14 de abril de 2026 🔒 Exclusivo assinantes
Vorcaro negocia devolução de bilhões para fechar delação sobre fundos de pensão

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro (fundador do Banco Master) negocia um acordo de colaboração premiada que prevê a devolução de valores suficientes para cobrir rombos superiores a R$ 3 bilhões em fundos de pensão estaduais e municipais. A proposta, a ser apresentada ainda nesta semana à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR), surge em meio a pressa do empresário, que teme a dilapidação de patrimônio oculto em estruturas financeiras no Brasil e no exterior.

O nó financeiro: quanto Vorcaro pode devolver?

Ainda não há consenso sobre o montante exato que Vorcaro está disposto a ressarcir. Fontes próximas às negociações indicam que a defesa do ex-banqueiro pretende incluir no acordo o "ressarcimento de todos os fundos de pensão" afetados pela crise do Master.O Ministério da Previdência Social confirmou que pelo menos três estados e 15 municípios aplicaram R$ 1,87 bilhão em letras financeiras emitidas pelo banco entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Mas o prejuízo real é maior: o Rioprevidência, fundo do Rio de Janeiro, teve exposição total de R$ 2,6 bilhões ao adquirir também outros tipos de papéis do Master."A proposta dele vai incluir o ressarcimento de todos os fundos de pensão", disse fonte a par das discussões, ouvida em caráter reservado.No Amapá, feudo eleitoral do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a Amapá Previdência (Amprev) aplicou R$ 400 milhões. O Amazonas investiu R$ 50 milhões. Todos esses recursos foram direcionados a letras financeiras — títulos de alto risco sem proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Isso significa que, com a liquidação do Master pelo Banco Central em novembro de 2024, os investidores públicos ficaram sem garantia de ressarcimento automático.

Pressa tem nome: patrimônio oculto em risco

A urgência de Vorcaro não é apenas jurídica. É financeira. Segundo apurações de veículos de imprensa, o ex-banqueiro estima que mais de R$ 10 bilhões em ativos estejam dispersos em uma rede complexa de fundos administrados por gestoras independentes, no Brasil e no exterior.Com Vorcaro preso desde 4 de março de 2026 e seus principais colaboradores também sob custódia, há risco real de que gestores, credores ou terceiros com acesso a essas estruturas comecem a mover ou dilapidar os recursos antes que um acordo seja homologado."Quanto mais se prolongarem as tratativas com a PF e a PGR, maior o risco de dilapidação do patrimônio que poderia lastrear um acordo", avalia interlocutor do caso em Brasília.O liquidante do Master, Eduardo Bianchini, indicado pelo Banco Central, calcula que pelo menos R$ 4,8 bilhões em bens e fundos ligados a Vorcaro já teriam sido desviados antes da intervenção federal.

O perfil do relator e a exigência por resultados

A estratégia de defesa de Vorcaro leva em conta o perfil do ministro André Mendonça, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF). Mendonça tem doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, com tese focada em recuperação de ativos em casos de corrupção — um sinal claro de que acordos sem devolução expressiva terão dificuldade de avançar.A PF identificou quatro núcleos operacionais no esquema do Master:

  1. Núcleo financeiro: estruturação de fraudes contra o sistema financeiro;
  2. Núcleo de corrupção institucional: cooptação de servidores do Banco Central;
  3. Núcleo de ocultação patrimonial: uso de empresas interpostas para lavagem de dinheiro;
  4. Núcleo de intimidação: monitoramento ilegal de jornalistas, adversários e autoridades.

Além de Vorcaro, foram presos Fabiano Zettel (responsável por pagamentos e núcleo de intimidação) e Marilson Roseno da Silva (policial federal aposentado ligado ao grupo de monitoramento). Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Sicário", morreu sob custódia da PF em março de 2026, em circunstâncias ainda sob apuração.

Conexões estaduais: rapidez atípica e resistência ignorada

As investigações revelam padrões semelhantes em diferentes estados. No Rio de Janeiro, a cúpula do Rioprevidência credenciou o Master e liberou um aporte inicial de R$ 100 milhões em menos de um mês em 2023 — processo acelerado com a atuação do então diretor-presidente, Deivis Marcon Antunes, preso pela PF em fevereiro de 2026. O comitê de investimentos do fundo só se reuniu em 30 de novembro de 2023, um mês após a aplicação expressiva.No Amapá, o presidente afastado da Amprev, Jocildo Lemos, e o conselheiro José Milton Gonçalves forçaram a aprovação de um aporte de R$ 100 milhões, apesar de parecer técnico da Caixa Econômica Federal alertando para o alto risco de solvência do Master. Ambos foram indicados com apoio de Alcolumbre, que atua nos bastidores contra a instalação de uma CPI específica sobre o caso Master."A auditoria do Ministério da Previdência concluiu que autarquias e fundos municipais terceirizaram 'indevidamente' a habilitação do Master para receber investimentos."Documentos sigilosos obtidos por veículos de imprensa mostram que, em pelo menos três cidades de estados diferentes, os papéis que avalizavam o Master eram idênticos — indício de padronização suspeita no processo de credenciamento.

O que está em jogo além do dinheiro

A delação de Vorcaro não é apenas uma questão contábil. É um teste de resistência institucional. Se homologado, o acordo pode estabelecer um precedente para recuperação de ativos em casos de colapso financeiro com envolvimento do poder público. Por outro lado, a pressão por resultados rápidos — em ano eleitoral e com olhos voltados para o STF — cria um cenário de negociações sob holofotes, onde cada movimento é lido como sinal político.A pergunta que resta: quem paga a conta se o acordo não sair? Estados e municípios já pressionam por soluções imediatas para honrar compromissos com servidores. Enquanto isso, o tempo corre — e com ele, a possibilidade de que parte do patrimônio buscado simplesmente desapareça.

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