Análise e Opinião

EUA vs. China: a nova guerra pelos recursos minerais da Lua

Fernanda Brandão analisa a missão Artemis II sob a ótica das Relações Internacionais, explorando a disputa pelo "comando dos comuns" e a exploração trilionária de minerais lunares

14 de abril de 2026 🔒 Exclusivo assinantes
EUA vs. China: a nova guerra pelos recursos minerais da Lua

Artemis II e a corrida pelo espaço

(*) Fernanda Brandão

Nos últimos 10 dias, a comunidade internacional acompanhou com atenção e expectativa a missão da NASA, Artemis II, que enviou a cápsula Orion ao espaço, para uma missão cujo principal objetivo era circundar a Lua e fazer imagens da face oculta do satélite natural da Terra. A Artemis II acontece 54 anos depois da última missão que levou o homem à superfície lunar, a Apollo 17, em 1972. A perspectiva é de que em 2028 a NASA realize uma nova missão, a Artemis IV, com o objetivo de pousar na Lua e posteriormente dar início à construção de uma estação lunar até 2030.

Contudo, a Artemis II e a retomada do esforço de pousar na Lua acontece em um cenário de crescente competição entre as principais potências e da retomada da corrida pelo espaço entre essas potências dominantes. Barry Posen afirma que para ser o poder hegemônico em termos militares, é preciso que o país que ocupa essa posição tenha o comando do mar, do ar e do espaço, que ele chama de “comando dos comuns”. Isso significa que a potência dominante tem poder militar suficiente para garantir o acesso a esses espaços e limitar o acesso de terceiros a eles.

Durante a Guerra Fria, a corrida espacial e a Guerra nas Estrelas foram elementos centrais da disputa entre Estados Unidos e URSS pela preponderância global. A União Soviética começou essa corrida na frente ao enviar a nave Sputnik em 1957. Posteriormente, os Estados Unidos alcançaram seu objetivo em 1969, quando o homem pisou pela primeira vez em solo lunar.

Hoje, a corrida pelo espaço ainda não assumiu um caráter militarista, mas tem novas dimensões, como a possibilidade de exploração de recursos minerais. Michael Klare afirma que alcançamos a exploração da última fronteira de recursos disponíveis no planeta, levando à necessidade de buscar em lugares de difícil alcance.

A mineração lunar e a transição energética

O esforço para ocupação da Lua tem como um de seus principais objetivos a exploração de recursos como o Hélio-3, raro na superfície terrestre, mas usado na tecnologia de fusão nuclear, que pode ter um papel central na transição energética. Outros recursos como platina, paládio e irídio também podem ser encontrados. Há expectativa de que a mineração lunar gere valores trilionários e que a estação na Lua sirva de base para Marte.

O desafio chinês: Tiangong e BeiDou

Atualmente, o principal competidor dos Estados Unidos é a China. O programa espacial chinês é bastante avançado e conta com sua própria estação espacial, a Tiangong, além do sistema de navegação BeiDou, que possui 55 satélites próprios. Pequim tem o programa Chang’e de exploração lunar, pretendendo construir bases em parceria com a Rússia até a década de 2030. A China já pousou robôs no solo lunar e foi um dos primeiros países a pousar em Marte com a missão Tianwen-1.

Geopolítica e os Acordos Artemis

A nova corrida pelo espaço coloca importantes questões para a política internacional. Quem tem o direito de explorar? Quais serão as regras? A Organização das Nações Unidas (ONU) seria o principal espaço para essas normas, mas a disputa entre China e Estados Unidos levou Washington a iniciar tratados bilaterais: os Acordos Artemis, estabelecidos em 2020. Eles determinam os parâmetros de exploração entre parceiros, empresas privadas e os EUA.

Conclusão: Arena de competição global

A exploração do espaço traz oportunidades de avanços tecnológicos significativos. Contudo, a disputa pela preponderância global pode novamente dar tons sombrios a esse avanço. À medida que a competição se acirrar, há possibilidade de que o espaço se torne uma importante arena dessa competição.

(*) Fernanda Brandão é coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio.

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